Senta-se à sua frente. O repórter arruma os papeis que o vampiro lhe entregara dias antes. Arrumava os óculos, coçando a testa e quase derrubando o cigarro da boca. Era um pouco desorganizado, constatou o vampiro, riu baixinho mas logo voltou à pose séria.
Raphaël: Pronto?
Lauren (Repórter): Sim, sim... Desculpe! Então, qual é o seu nome completo?
Raphaël: Chamo-me Raphaël Vigée-Lebrun, é um prazer, Lauren.
Lauren: Por que tem um nome francês se consta aqui que é Alemão? E quantos anos você tem, Raphaël?
R.: Minha família tem uma linhagem muito antiga, e como em toda família européia casamentos por benefícios. Um deles foi com uma família parisiense, e o nome deles passaram de geração para geração, naturalmente. Já Raphaël (Eu uso com trema no E e com PH, já que era assim que minha mãe queria, mas no cartório escreveram Rafael, e preferi deixar do jeito que ela gostava), foi uma promessa. Quando nasci deveria ter morrido mas sobrevivi, e no Hebraico Rafael é um anjo de Deus, como sabe e significa “Curado por Ele”. Enquanto minha idade; morri tinha 24 anos. Hoje em dia, mesmo contando a mortalidade tenho 90 anos exatos.
L.: Como era sua vida mortal?
R.: Minha vida mortal era como qualquer outra. Eu trabalhava, estudava (às vezes), bebia e saia. Cuidava das minhas irmãs sempre que podia e ajudava minha mãe. Pode-se dizer que eu era o típico filho primogênito perfeito.
L.: Nunca houve conflitos entre vocês?
R.: Bem, quando me envolvi com Demétria meu pai se aborreceu muito. Não por ela em si, mas sim com quem a protegia. Prefiro não citar nomes se não se incomoda. Outro problema que tive foi quando fugi de casa para morar com Wone, mas o não foi isso que aborreceu meus pais mas sim o que o pai dela fez. Acharam uma ignorância ao extremo, mas eu não me importei. AH! Também o pai e a mãe dela bateram muitas vezes em nossa porta dizendo para nos casarmos (Nunca aconteceria, RS).
L.: Está bem... – ele procurou suas anotações em umas páginas – Como se tornou vampiro? E o que isso representa para você? É um fardo para você?
R.: Vamos por partes. A primeira resposta que posso lhe dar é essa: “Foi acaso”. Um vampiro me tirou do campo de batalha e me transformou. Pára ai minha história. A segunda resposta: O que ser vampiro representa para mim? Não posso dizer que gosto, mas também não desgosto. Ser vampiro é uma experiência ótima, vou confessar. Cada dia é uma surpresa. Mas, tem seu preço... E muitas vezes é alto. Às vezes acho que somos os Anjos da Morte de Deus. Matamos quem precisamos para sobreviver e nos afastamos daqueles que tem sangue de cordeiro. Fomos trazidos ao mundo para limpá-lo. Deve ser isso, não vejo uma explicação mais coerente para explicar como chegamos aqui. E a terceira resposta: Não, não é um fardo. Gosto de matar.
L.: Qual foi a maior dor que você já teve enquanto era vampiro?
R.: Ser vampiro é praticamente ser humano. Há grandes detalhes que contam. Sentimos muito mais, mas isso em tato, visão... Sentidos em geral, entende? Muitos de nós só evoluímos da forma humana que éramos. Os sentimentos ainda existem. Minha primeira maior dor foi encontrar meus pais e irmãs mortas ao voltar para casa. Já era um vampiro na época, e não reagi bem, chorei como uma criança. A segunda maior dor foi colocar um monstro na terra – Angelique. E a terceira foi nunca ter um filho, e isso se mescla com Mellyssa, acho que essa é a pior de todas as dores.
L.: Quem é Mellyssa?
R.: Mellyssa... Bem, quando eu me evolvi com Eleni (eram amigas) a conheci. Tinha um relacionamento com Eleni na época, e acabei traindo-a com Mellyssa. Então, Eleni me deixou para ficar com Louis (nem me pergunte sobre isso) e eu fiquei sozinho muito tempo. Vaguei pelo Mundo até reencontrar Mellyssa, e esta virou o amor da minha vida. A mulher que eu mais amei até hoje.
L.: Por que ela tem a ver com a falta de um filho?
R.: Prefiro não falar sobre isto, desculpe-me.
L.: Está bem... Quem foi Volúpia e Donato em sua vida?
R.: Isso se resume em dor. Posso explicar assim... Donato me amava. Eu amava Volúpia. E Volúpia amava Donato. É um pouco complicado. Acho que meu maior erro é ser um eterno apaixonado mesmo não demonstrando. Eu a amei muito, mas quando Donato descobriu se matou e ela se foi com rancor de mim.
L.: Você ainda a ama? Pelo menos um pouco?
R.: Eu ainda amo cada mulher de minha vida – pelo menos as que me marcaram de alguma forma. Volúpia me ensinou muito, era madura.. Foi minha primeira mulher de verdade depois de Demétria. As duas deixaram muitas coisas em mim, principalmente a paixão pela música. Então houve Sybelle. Houve muita desilusão com ela, mas, eu a amei muito. Então tenho Eleni na minha vida. É a que eu mais gostaria de me desculpar... Eu deveria ter a amado mais... Mas não me arrependo, pois amo Mellyssa com todas as minhas forças.
L.: Tem rancor de alguém?
R.: Como disse os sentimentos humanos ainda existem em mim, tanto como em outros vários vampiros. Às vezes penso como fui imprudente ao pensar que Wone poderia ter sido madura o suficiente para agüentar as próprias escolhas, me enganei. Já Angelique... Posso lhe dizer que eu me odeio só por ter criado esse lixo ambulante. Bem, se continuar serei por demais indelicado. Mas saiba, há outros que eu odeio, a maioria mulher.
L.: Você leva como a imortalidade?
R.: Um esporte de sobrevivência. Você mata para viver, caça para se divertir. É tudo um jogo, acho que acima dos humanos, nós, vampiros somos as maiores marionetes de Deus. Fazemos seu trabalho sujo.
L.: Desculpe por recapitular... Mas sente rancor de Deus também?
R.: Vou ser sincero... Há tempos não O visito mais em orações. Acredito em Sua existência, mas sou racional demais para não ser considerado “Anti-Cristo” como vários outros. Eu penso dessa maneira: Se Deus existe, como Ele deixa uma criança sofrer? Sei que há um plano maior para todos nós. Mas eu não me conformo. Nunca o perdoarei pela dor que sofri quando vi minhas irmãs mortas.
L.: Sinto muito...
R.: Não sente. Mal humano, dor alheia é “pimenta nos olhos é refresco” como vocês dizem.
L.: (...) Você sabe mais ou menos quantas pessoas matou até hoje?
R.: Não, não sei.. Mas deve ter passado de mil. Era muito insaciável quando recém-nascido para Escuridão.
L.: O que pode dizer de outros vampiros?
R.: Bem, conheci vários vampiros, inclusive Mina Harker, que hoje em dia é uma grande amiga. Conheci celebres atrizes do Théâtre Des Vampires... Eleni e Vitalya – ambas muito importantes para mim. Mona e Merrick Mayfair, as primas bruxas e se tornaram parte de meu ser, principalmente Mona com sua alegria contagiante mesmo nos piores dias. Conheci David Talbot, Lestat de Lioncourt e Armand – os três memoráveis. E houve os que viviam com Mellyssa, quais despertam um interesse em mim anormal, mas não ouso me aproximar muito. Ser vampiro é algo difícil e sós pessoas extraordinárias sobrevivem nessa forma. Você nunca verá uma personalidade fraca e entediante. Há temperamentos diversos, mas todos muito agradáveis até mesmo o mais arisco. E sem dizer que todos muito bonitos. Acho que no inconsciente quando escolhemos nossas crias pegamos ápices da humanidade – não me valorizando, pois me acho exceção. Mas é uma realidade. Falando esteticamente (nós vampiros somos muito vaidosos) somos todos belos, uma elite bem limitada. E o mais interessante que vemos padrões em cada vampiro. Há vampiros criados há dois mil anos, quando o padrão de beleza era outro... Dá para se notar bem as diferenças entre eles, entre um novato e um antigo, mas são muito belos em seus padrões.
L.: Você tem crias?
R.: Uma só minha e uma conjunta. Angelique que já falei e Alex, minha cria com Mina... Acho que afinal foi um presente que lhe dei (Ai! Como me causou problemas).
L.: Vampiros mantêm relações sexuais?
R.: Não. O corpo que você vê aqui é carne morta. Quando morri meu corpo morreu também, soltou fluídos, a carne desprendeu. É bem nauseante, para falar a verdade. Paramos de produzir células, hormônios e sêmen. E para manter relações, pelo menos chegar ao gozo é necessário ter sêmen para concluir o ato. Muito de nós sente falta – inclusive eu -, então acabam simulando, e penetram mesmo sua companheira ou escravo. Acho que deve dar uma pequena lembrança do que era o ato de sexo.
L.: Você também faz isso?
R.: Que pergunta indelicada, hahahahahhahaha. Quando era mais novo sim, já que todos os dias da minha mortalidade desde que eu virei “homem de verdade” eu passei a praticar sexo, não importando quem fosse... Demétria, uma velha ou até mesmo uma prostituta barata. Então foi difícil desacostumar, no começo quando Angelique me irritava eu a violentava – foi a primeira que eu fiz e a última -, eu acho que tentava descontar nela a raiva que sentia pelos soldados russos que destruíram minha família. Angelique era pequena, um metro e meio de altura, acho que um pouco mais, loira de olhos azuis. Aproveitei bem aqueles momentos. Acho que aquela época eu mostrei minha pior faceta ao mundo.
L.: Você parece tão calmo...
R.: E sou. Nada me tira do sério. Só Angelique e Alex – mal de filhos, rss.
L.: Ah... Hahahahha. Que gosto tem o Sangue?
R.: Tem um cheiro amadeirado, parecido com ferrugem quando muito denso. Mas normalmente doce. Pelo sangue você sente exatamente tudo que a pessoa já usou, fumou, ejetou. Ele deixa marcas incríveis. Particularmente eu gosto da cor.
L.: E a troca de Sangue entre os vampiros?
R.: Você me perguntou sobre o sexo entre Imortais. Bem, como não fazemos sexo convencional como vocês, nós usamos da Troca de Sangue. Quando você bebe o Sangue de alguém você vê tudo em sua mente, lembranças, sentimentos e sensações. É bem complexo, por isso entre nós Imortais, é considerado como Sexo (Fazer Amor, acho que é o termo melhor). É algo muito íntimo, entende?
L.: Sim...Você já fez isso com muitas “vampiresas”?
R.: Com todas que tive um relacionamento romântico. Volúpia, Bianca, Sybelle, Eleni e Mellysa (a mais profunda).
L.: Você coloca aqui como “Presente das Trevas”, por que esse termo?
R.: Não fui eu que o inventei, quem me dera ser dono de tão celebre nome. Eu apenas o uso como todos os outros vampiros. São códigos, entende? Quando vampiros moram juntos (mais de dois, por exemplo) não é família, é uma “Congregação”, ai tem seus tamanhos. Quando vampiros têm relacionamento amoroso entre si e vivem juntos não são casados mais sim “Companheiros”. Você não tem filho, e sim “Cria”. E ele não tem um pai, e sim “Mestre” ou “Criador”. São termos técnicos. O “Presente das Trevas” é o Dom que você recebe, é o que você se torna... Popularmente falando um Vampiro.
L.: Hm... Qual é o vampiro mais antigo entre vocês?
R.: Vivo acho que deve ser as Gêmeas: Maharet e Mekare.. Depois delas Khayman. São muito conhecidos entre nós. Mas sempre há algum leigo. Antes delas, existiu a Rainha e o Rei. A Rainha Akasha foi a primeira Vampiresa a pisar em solo terrestre, incorporando o espírito Amel dentro de si.
L.: E sobre as bruxas?
R.: Realmente não sei nada disso, desculpe-me. Mais alguma pergunta? Meu tempo está acabando.
L.: Não, nenhuma. Obrigado pela oportunidade, Raphaël.
O repórter se levantou e estendeu a mão. O vampiro a olhou e viu as veias pulsantes e o suor em sua palma. Sorriu e se despediu.Uma rajada de vento frio abre a janela e Lauren distraído vai até ela fechá-la. Quando voltou a mesa seus papéis haviam sumido, junto com a história que o Vampiro havia lhe dado. Olhou para filmadora e a fita também sumiu.
- Filho da Pu....
Raphaël se encontrou atrás dele e quebrou seu pescoço em um único gesto.
- Puta é sua mãe.
Disse em meio sorriso, enquanto o sangue escorria pelo chão de madeira.
quarta-feira, 12 de março de 2008
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